6# MEDICINA E BEM-ESTAR 22.1.14

A NOVA LIBERTAO SEXUAL DA MULHER

A chegada de quatro remdios destinados a aumentar o prazer sexual feminino promete combater pela primeira vez na histria as dificuldades mais comuns enfrentadas por elas
Mnica Tarantino e Michel Alecrim 

Uma em cada duas mulheres brasileiras sente que seu desejo sexual no  to intenso quanto ela gostaria, no fica to excitada quanto esperava ou enfrenta dificuldades para chegar ao orgasmo. Extrada pela psiquiatra Carmita Abdo, criadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo, em seu Estudo Sexual da Vida do Brasileiro, a informao escancara a realidade da vida sexual feminina no Pas. E ela est de acordo com o que se observa na maior parte do mundo. Temos os mesmos ndices de dificuldades sexuais de outros povos, afirma Carmita, internacionalmente reconhecida como uma autoridade em sexualidade humana. As mulheres, no entanto, esto prestes a ganhar fortes aliados contra esse problema. Quatro novos remdios devem chegar ao mercado com a promessa de ajudar a mulher a encontrar o prazer na cama. Ser a primeira vez que ela ter  disposio uma plula com esse objetivo. Em um paralelo histrico recente, os remdios tero, para a mulher, a mesma importncia que o Viagra, lanado em 1998, teve para o homem. O que se espera  que os medicamentos no s ofeream a elas um salto de qualidade no sexo, mas tambm auxiliem a trazer  tona a discusso sobre como as mulheres lidam com seu corpo, seus medos, suas indagaes  a exemplo do que ocorreu em relao s questes do pblico masculino quando do lanamento da famosa plula azul. Enfim, os prximos anos registraro a mais nova revoluo sexual feminina.

FRANQUEZA - A psiquiatra Carmita diz que os novos remdios estimularo debates reveladores sobre sexualidade 

Na semana passada, a indstria farmacutica britnica Orlibid anunciou o mais recente passo nesse sentido. A companhia informou que, em abril, iniciar a realizao de testes em mulheres com um derivado da melatonina, hormnio com ao em diferentes funes orgnicas. A regulao do sono  a mais conhecida, mas h indcios de que baixas concentraes estejam associadas  perda do desejo sexual. Calculamos que, iniciados os testes, em dois anos estaremos no mercado se as expectativas de eficcia se confirmarem, disse  ISTO Mike Wyllie, consultor para a pesquisa do novo medicamento e um dos cientistas que participaram do desenvolvimento do Viagra.

 Em fase bem mais adiantada esto dois remdios criados pelo holands Adriaan Tuiten, presidente do laboratrio Emotional Brain. Eles entram em fase final de testes entre abril e maio. Nos ltimos meses, Tuitten apresentou os dados obtidos at agora  Food and Drug Administration (FDA), agncia americana que regula remdios, e  EMEA, entidade europeia de mesma finalidade. Discutimos aspectos dos estudos, disse  ISTO. A primeira medicao  o Lybrido. Trata-se de uma combinao da sildenafila (mesmo princpio ativo do Viagra) com o hormnio masculino testosterona. A queda nos nveis da substncia est relacionada  baixa libido. A associao dos dois compostos aumenta o impulso sexual e promove o entumescimento da vulva, preparando o corpo feminino para o sexo.  endereada a mulheres com alteraes na percepo dos estmulos sexuais pelo sistema nervoso central. A segunda droga une a testosterona a um ansioltico, a buspirona, para diminuir os nveis de serotonina (uma das substncias cerebrais que fazem a comunicao entre os neurnios e cujo desequilbrio est na origem da depresso). Quantidades elevadas reduzem o desejo por sexo, um efeito colateral bem documentado por causa da popularizao de antidepressivos como a fluoxetina (Prozac).

H ainda a flibanserina, que promete regular compostos cerebrais associados  excitao (dopamina e norepinefrina) e  inibio sexual (serotonina). Essa ao melhora o desejo e a satisfao, disse  ISTO Cindy Whitehead, presidente da americana Sprout Pharmaceuticals. Em dezembro, novos estudos com mulheres na pr-menopausa foram enviados ao FDA para responder a questionamentos do rgo sobre a eficcia do remdio. Um deles  que teria mostrado um efeito menos importante do que as substncias placebo usadas nos estudos para medir sua eficcia. Devemos ter clareza sobre os prximos passos at o fim do primeiro trimestre de 2014, informou Cindy.

ABORDAGEM - No consultrio, Maria do Carmo lida com os diversos aspectos do desejo da mulher

 A criao desse gnero de remdios s foi possvel com o aprofundamento do conhecimento sobre os caminhos fisiolgicos e emocionais que marcam a sexualidade feminina. Hoje so conhecidas as mudanas fsicas desencadeadas pelo desejo e as razes orgnicas que podem acabar com ele. Alteraes no funcionamento da glndula tireoide, por exemplo, esto na raiz de dezenas de casos de mulheres que perderam o desejo sexual. Do ponto de vista emocional, esto fatores como problemas de relacionamento com o parceiro, estresse, o tipo de educao recebida e a dor de uma traio. No Centro de Referncia e Especializao em Sexologia do Hospital Prola Byington, em So Paulo, funciona um grupo voltado s para mulheres que foram tradas. Elas vo para esse tipo de terapia quando esse episdio influencia a falta de desejo, explica a obstetra e terapeuta sexual Tnia das Graas Santana, de So Paulo. Criadora do servio, ela defende a expanso de centros semelhantes, que acolham todas as nuances da sexualidade feminina.

O sexlogo Amaury no cr que apenas doses de testosterona possam devolver o prazer delas 

Essa pliade de fatores deixa claro que, assim como acontece com os homens, a vida sexual da mulher  pautada por mltiplos fatores. Portanto, seria ingnuo pensar que apenas os novos remdios sero completamente responsveis pela felicidade sexual feminina. No temos como conceber uma plula mgica do desejo. A libido  complexa, diz a psicloga Maria do Carmo Andrade Silva, do Rio de Janeiro, especialista em terapia sexual. A testosterona sozinha no vai transformar a mulher em potncia sexual, concorda o ginecologista e sexlogo Amaury Mendes Junior, secretrio- geral da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana.

 Mas os estudiosos do tema asseguram que a chegada das medicaes promover impactos profundos, assim como ocorreu no lanamento da plula anticoncepcional, na dcada de 1960. Ela sozinha no significou um passe livre para o prazer, mas abriu a primeira porta para isso ao permitir que a mulher tivesse relaes sexuais sem o medo de engravidar. Com as drogas do desejo, sero muitas as repercusses. A primeira delas ser corrigir o problema em mulheres saudveis, nas quais a falta de libido ou excitao no est relacionada a causas conhecidas, como doenas ou problemas de relacionamento, diz Carmita Abdo, que nesta semana apresentar mais um perfil sexual do brasileiro, baseado em uma comparao do comportamento de casais do Brasil com o de outros de 36 pases. As medicaes tambm podero prolongar a vida sexual de mulheres que enfrentam as mudanas hormonais da menopausa e da fase que a antecede, quando a tendncia  o desejo sexual diminuir.

Outra transformao esperada  que as prprias mulheres acabem falando mais francamente de suas dificuldades. Se o especialista tem um tratamento para oferecer, as pacientes ficam mais motivadas a contar suas queixas, diz Carmita. Alm disso, quem for ao mdico apenas para tomar o remdio e no obtiver o efeito esperado muito provavelmente vai querer discutir por que no funcionou, abrindo uma discusso sobre outras causas possveis. Tudo vir  tona, afirma a psiquiatra. A discusso tomar corpo tambm fora do consultrio. Dever haver um melhor acolhimento do desejo feminino na sociedade, prev a mdica e psicanalista Snia Eva Tucherman, filiada  Associao Psicanaltica Internacional.

Do ponto de vista prtico, h uma discusso sobre quem poder tomar as novas medicaes e sobre suas contraindicaes. Ainda no h respostas completas s duas indagaes, mas, a contar do mecanismo de ao das drogas,  possvel inferir algumas concluses. Em doses maiores, a sildenafila no pode ser usada por pacientes cardacas usurias de xido ntrico ou nitratos, pois potencializa seus efeitos. A melatonina  desaconselhada para gestantes e mes em fase de amamentao, pela falta de estudos confiveis nessa populao. J a buspirona no  indicada na gravidez sem orientao mdica. Em doses maiores, no deve ainda ser usada por pacientes com histrico de crises convulsivas. Em relao  testosterona, o ginecologista Amaury Mendes Junior considera que sua reposio para mulheres precisa ser feita com muita cautela. Doses exageradas podem ter efeitos como aparecimento de pelos no rosto, inchao dos seios, crescimento de clitris e alterao na voz. Quanto  flibanserina, alguns dos efeitos colaterais, como fadiga, tontura e nusea, j foram registrados nas pesquisas. Os compostos desses remdios atuam no sistema nervoso central e no sistema endcrino. No  uma brincadeira inocente, adverte a psicoterapeuta Iracema Teixeira, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana.
 por essas razes que os remdios devero ter indicao criteriosa. O cuidado  necessrio para que os novos medicamentos no prejudiquem a sade e no joguem a mulher em outras armadilhas, como a de acreditar que por receberem um estmulo qumico sejam obrigadas a ter um desempenho excepcional na cama. A mulher no pode ser vtima da ditadura da performance sexual, afirma a historiadora Mary Del Priore, autora do livro Histrias ntimas: Sexualidade e Erotismo na Histria do Brasil. As medicaes esto sendo desenvolvidas para aumentar o prazer, e no a carga de deveres.

